CRÔNICA METALINGUÍSTICA PRODUZIDA PELA PROFESSORA DE LÍNGUA PORTUGUESA ROSILENI FUGULIN EM PARTICIPAÇÃO À OFICINA "LER E ESCREVER RUBEM BRAGA" NA SUPERINTENDÊNCIA REGIONAL DE NOVA VENÉCIA.
A
febre dos tempos modernos está na boca da galera “Dá nada!”. Não consigo
compreender e aceitar tal resposta de sentido vazio. Dar é verbo transitivo,
exige complemento e NADA não complementa nada. Mesmo assim meus ouvidos são
enxovalhados com o tal famoso “Dá nada!”. Atenção à aula! “Dá nada!” Desligue o
celular! “Dá nada!” Tire o fone do ouvido! “Dá nada!” Estudou para a prova? “Dá
nada!” Respeite o colega! “Dá nada!”...
E
entre tantas respostas vazias,a vida vai respondendo com o índice de violência
crescendo e o resultado do IDEB caindo. O adolescente, aquele que responde a
mais simples pergunta com um “Dá nada!”, está perdido numa sociedade em que
pode-se tudo, ah, só não pode trabalhar. Traficar, “Dá nada!”. Roubar, “Dá
nada!”. Intimidar professores e colegas, “Dá nada!”. Ficar reprovado na Escola,
aí que não “Dá nada!” mesmo porque se der, o sistema sempre traz uma “carta na
manga” e uma nova oportunidade aparece: “Vamos reclassificar!”, afinal os
índices têm que melhorar.
Vejo
jovens desorientados, tendo que lidar com os limites da idade adulta sem terem
aprendido com os limites que lhes faltaram na infância e adolescência. Vejo
professores desanimados porque ao invés de darem aula, aqui o complemento é
adequado, acabam passando mais da metade do tempo resolvendo conflitos. E a
função para a qual estudaram e foram contratados? “Dá nada!”.
Não
pensem que sou uma professora desacreditada, não. Só não consigo me calar e
assistir inerte a tanto comodismo, sei que é possível ser muito mais que NADA,
tenho exemplos valiosos de alunos que, com o pouco ou quase NADA que tinham,
conseguiram tornar-se cidadãos respeitáveis. Temo pela qualidade de vida
futura, famílias omissas e desestruturadas, filhos consequentes de uma transa,
que na excitação do momento um dos “pais” respondeu:“Dá nada!”.
Mas
deu um filho. E sem estrutura alguma para ser educado. Esse, manterá o círculo
vicioso do “Dá nada!”. Na verdade, na vida nunca “Dá nada!”, sempre há uma
consequência, para qualquer atitude, e para as impensadas sempre vem mais rápido.
Quantos jovens perdendo a vida tão cedo, abarrotando as cadeias, perdidos nas
drogas! E ainda vão responder que “Dá nada!”. Deu. Em alguma coisa deu,
trágica, mas deu.
Enquanto
não houver uma mobilização social para resgatar a inconsequência, nossos jovens
continuaram presos ao “Dá nada!”, porque certamente não tem como esperar muita
coisa, não vão dar nada mesmo, profissionalmente, “e se der é pouca coisa”!
RosileniFugulim
Professora
de Língua Portuguesa da EEEM “Maria Dalva Gama Bernabé
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